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A RAPOSA FELPUDA


As eras

 

As grandes corporações de mídia - Rede Globo, portal UOL (Folha de S. Paulo), o grupo Abril (revista Veja à frente), as redes católicas (Canção Nova à frente), - grupos abertamente racistas, anti gays, anti pobres, anti faveladas, manipulam os jovens com as mais descaradas mentiras.

 

Não lembram aos jovens o que era o mundo anterior ao governo Lula. Não lembram aos jovens o que significou Tancredo Neves (que apoiou o Regime Militar, conchavou-se com Sarney se aproveitando do golpe anti diretas-já) - e o que significará o seu herdeiro Aécio Neves.

 

A juventude de Facebook está praticamente entregue aos valores dessas corporações. Elas nunca pautam o que de fato interessa ao avanço social no Brasil: discussões, como a descriminalização do aborto (e todas as suas consequências para a proteção de mulheres em estado de vulnerabilidade social); uma reflexão baseada em dados que faça frente a cantilenas de que vivemos no país da impunidade (como assim, se temos uma população carcerária de inacreditáveis 715 mil pessoas presas, a terceira maior do mundo?); debates sobre o marco regulatório contra a reserva de mercado de mídia, concentrada nas mãos de três a quatro famílias no Brasil; o enfrentamento do crescimento de grupos religiosos, que trazem consigo autoritarismo e fundamentalismo.

 

Para os jovens incautos de Facebook, professoras-madames-universitárias  noveleiras, pretos subservientes assinantes dessas revistas-esgoto e telespectadores dessas redes de televisão racistas, é sempre bom lembrar o que era o país antes e depois da era Lula. Vou elencar alguns fatos de memória, e reafirmar a minha posição política bem clara: vou votar em Dilma; fazer campanha pra Dilma; escrever em favor da campanha de Dilma; e contribuir financeiramente com a campanha de Dilma. E mais, teremos a melhor copa mundial de futebol da história, pois vai ser a copa no Brasil, o maior time de bola da história. Já comprei a minha fita verde e amarela, e algumas bananas, para jogar no campo dos adversários militantes inconsequentes da torcida ignorante dos “não vai ter copa”.

 

I.A era pré-Lula

 

1.Donas de casa fiscais do Sarney

2.Confisco da poupança

3.Apagões de FHC (FHC obrigou o país a racionar luz)

4.Dependência do FMI (o golpe do discurso do enxugamento, do corte de gastos)

5.Falta de universidades (raros concursos públicos empregados na educação)

6.FHC e seu ministro da Educação pau-mandado-do-mercado cogitaram privatizar as universidades federais

7.Subida descontrolada da inflação na época de FHC

8.FHC mandava grampear telefones

9.Todo mundo com mais de quarenta anos lembra da figura do engavetador-geral da União – hoje as denúncias são investigadas   

10.O fascismo na Bahia (com a anuência da revista Veja) contra os manifestantes na festa dos 500 anos

11.FHC doou 1,6 bilhão de reais ao banco Marka-Fonte Cindam (Cacciola)

12.Massacre de Eldorado dos Carajás

13.FHC e suas falcatruas na Expo 2000

14.Descontrole da dengue na era FHC e Paulo Souto (Jequié, coitada, a cidade mais prejudicada da Bahia, mesmo se orgulhando de ter dado à Bahia alguns governadores)

15.Reajustes de 580% na telefonia na era FHC

16.Pibículo de FHC

17.A fraude de mais de 2 bilhões na SUDAM de FHC

18.Aposentados “vagabundos” e povo brasileiro “caipira” (FHC era boca dura)

19.FHC planejava privatizar a Petrobrás, e transformá-la em Petrobrax

20.FHC quebrou o monopólio sobre o petróleo e permitiu que empresas estrangeiras explorassem as nossas jazidas

21.FHC impediu que a Petrobrás buscasse empréstimos no exterior

22.A gangue na Petrobrás (denunciada por Paulo Francis em 1997)

23.O escândalo da compra de votos para a reeleição de FHC (200 mil reais por deputado)

 

II.A era Lula e pós Lula

 

1.Bolsa família (o programa de distribuição de renda mais admirado do mundo)

2.Entre 2010 e 2014, 16 bilhões de reais serão arrecadados com impostos deixados pela FIFA nos gastos das obras da Copa (segundo a Ernst & Young e a Fundação Getúlio Vargas)

3.O primeiro preto da história no STF

4.22 milhões de pessoas deixaram a linha de pobreza

5.Programa Mais Médicos  

6.Inflação anual - Dilma: 6,08% - Lula: 7,53% - FHC: 12,4%.

7.Em 2002, a Petrobrás valia 15,5 bilhões de dólares. Em 2012, 126 bilhões. O lucro da Petrobrás em 2002: 8,1 bilhões. Em 2012, 21,2 bilhões. A receita da Petrobrás em 2002: 69,2 bilhões. Em 2012, 281,3 bilhões.

8.A maior valorização (em termos salariais e em termos de condições de trabalho) da CEPLAC, no Sul da Bahia, da história.

9.Taxa de desemprego (Dilma, 2014): Japão (4,1); Alemanha (5,3); Brasil (6,7); Canadá (7,1) Reino Unido e Estados Unidos (7,5); França (10,5); Itália (12,2); Portugal (16,9); Espanha (26,7) 



Escrito por BRAULINO SANTANA às 01h37
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Mídia neo nazista

O jornal Folha de S. Paulo abriu suas páginas, por anos, para que uma coluna de José Sarney fosse publicada ali. Estampa em primeiro plano notícias sobre novelas e Big Brother, privilegiando o ponto de vista de gente de pele branca, magra, de cabelo liso, e das classes médias dos grandes centros. Abre suas páginas a filosofias, sociologias e antropologias de serial killers ideológicos como Pondé, Mangoli e Azevedo. 

Ninguém nunca soube nada em relação à situação do Maranhão pois há um controle psicopata do que se noticia nesses jornais, nessas redes de televisão e nessas revistas produzidos no Sul e no Sudeste. Nunca um editorial do jornal cobrou explicações claras (nem obscuras) de José Sarney a respeito dos números envergonhantes do IDH, da educacação, da saúde pública e das condições de sobrevivência nos presídios do estado governado por sua família há decadas. Há uma manipulação assassina do conteúdo que deve ser publicado, e do que deve ser omitido, em veículos como a revista Veja, a Rede Globo e o jornal Folha de S. Paulo. 

Sabe-se que há violência nos presídios brasileiros há anos, mas não ficamos conhecendo o rosto, a idade, a classe social, a família das vítimas, a cor da pele, nunca, nada disso. "(...) Dyego Michael Mendes Coelho, 21, e outros dois presos foram decapitados no presídio superlotado de Pedrinhas, Maranhão. Relata Domingos Mendes, pai de Dyego: 'contei 180 furos no meu filho, um por um, isso só na parte da frente, porque ele estava de barriga para cima'". Uma pessoa perder a vida aos 21 anos, e nesses circunstâncias, é algo que dilapida, ou deveria, qualquer coração. Barbárie como essa contra uma pessoa sob responsabilidade do Estado não mobiliza ninguém, afinal, a classe média não foi atingida. Tenho certeza absoluta de que, se a família Sarney contratar cantoras de Axé para rebolar no carnaval de São Luís, elas irão abocanhar o dinheiro público lá sem manifestar culpa nenhuma. Elas irão colocar a mão no dinheiro coberto de sangue sem demonstrar o mínimo de compaixão em saber que a fortuna que recebem deveria era ser empregada na melhoria dos serivços públicos. Ninguém vai sair às ruas, ninguém vai se comover. A classe média faz silêncio, e se prepara para o carnaval. A classe média atendida e representada pela mídia neo nazista brasileira.

O único interesse desses veículos é empurrar na cara da gente que foi vazado na internet um vídeo do último bombado branco do BBB, exibindo, duro, o seu pau de jegue; que a loura com barriga de tanquinho da novela das oito exibiu um corpão, com peitos de silicone do tamanho de bolas de basquete, nas praias do Rio de Janeiro; e quando uma situação aterrorizante como essa explode na internet, Rede Globo, Veja e Folha de S. Paulo não fazem auto crítica para saber onde estavam e qual o papel delas nesse nosso mundo. 

Nunca se escreveu uma linha na Folha de S. Paulo apontando a frieza de um juiz que assina uma sentença ordenando uma pessoa a cumprir pena em presídios brasileiros - masmorras medievais onde apodrecem seres humanos. Como um juiz que assinou uma sentença mandando alguém cumprir pena num lugar de situação tão degradante consegue dormir direito? Qual o impacto psicológico na mente do juiz que assinou a sentença mandando quem foi decapitado cumprir pena naquele lugar, para morrer como morreu? Essas perguntas serão feitas, e não adiantará de nada, pois esses veículos de comunicação vão permanecer trancados em suas redomas de despudor, frieza e indiferença. 

Quando o ódio se volta contra eles, como vimos repórteres sofrendo violências nas manifestações do ano passado, como vimos no caso de Tim Lopes, e em tantos outros, eles se fazem de vítimas, clamam pelo respeito à liberdade de expressão - cinismo insuportável, pois, sabe-se, eles querem liberdade de expressão para que eles expressem somente o ponto de vista de gente rica, branca, magra, de cabelo liso, das classes médias dos condomínios fechados, do sotaque deles do Sul e do Sudeste.  

Nós nos arrastamos de impunidade em impunidade. Houve libertação de escravos para que eles fossem aprisionados e re-escravizados como mendigos nas cidades e recantos do país. Nunca se falou em indenização de pretos ex-escravos, redistribuição de terras para pretos, nada disso. Todas as vezes em que se fala em punição dos serial killers que cometeram torturas nas delegacias e nas prisões durante o regime militar - funcionários do estado pagos por nós para nos proteger -, a Folha de S. Paulo prefere reforçar a voz dos psicopatas sociológicos que querem "colocar uma pedra em cima disso", de o quanto é temerário se reabrirem feridas, balelas como essas. Enquanto feridas de preto, pobre e desvalidos continuarem abertas em verdadeiros tumores como esses do Maranhão, onde mais de sessenta pessoas morreram ano passado nos presídios do estado governando há anos pela família Sarney, esses veículos de mídia do Brasil - que privilegiam um tipo de gente, sua pele branca, e seu sotaque paulista e carioca - serão cúmplice da coisa toda. 

Dia desses recebi amiga em casa que me pediu pra ver a novela das oito. Fiquei de ovo virado, mas cedi. Em uma hora de programa, não apareceu uma pessoa de cabelo duro e pele negra na tela. O que mais me assusta e choca é como uma professora universitária assiste aquilo e não se incomoda com a total invisibilidade de pessoas realmente brasileiras ali, acompanha aqueles dramas que mais parecem vividos por manequins de lojas como se fossem dramas humanos que merecessem consideração. Vivemos num mundo de compadrio e conivências de todos os lados. 

Somente um dilúvio que arrebate a todos de uma vez, e leve todos para as terras do nada para sempre pode consertar o que não tem conserto. Amargura.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 12h26
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Plano de saúde genérico

Era preciso uma ressonância magnética do joelho esquerdo. O médico, um cinquentão branco, magro, usando uns óculos quadriculando a testa sem rugas, um homem frio, com mentalidade de médico de sociedades latinas - certa arrogância, certo sentimento de que exerce uma profissão-fetiche -, de cabeça baixa, e com ar de timidez calculada, perguntou o que ela estava fazendo ali. 

Ela disse. Era o joelho. Machucara-o numa manobra andando pela casa. Conseguia mover a perna com imensa dificuldade. Estava sofrendo. "Sente-se ali", ele disse. Ela obedeceu. Ele tocou a lesão inchada. Ela foi à loucura. Chamou o médico de 'viado'. Ele pouco se importou com a praga, o grito, o sentimento de dor que a fizera estremecer. Ele continuou a palpação. E arriscou um diagnóstico: "há uma fratura aí".  Era preciso uma radiografia e uma ressonância magnética para verificar a extensão e o grau da lesão.

O drama tem início. A gravação no telefone do hospital acionado para a marcação da consulta já dava o tom da exclusão toda: uma voz com nenhum sotaque de Salvador recomendava "tenha sempre em mãos a identidade e a carteirinha do plano de saúde". Como o SUS não é nenhum "plano de saúde", a pessoa é capaz de perder a perna, o baço, o fígado, o cérebro, se depender desse hospital, que, pelo visto, só aceita plano de saúde. 

Vivemos numa sociedade que nunca seria capaz de inventar o conceito de "remédio genérico", importado tardiamente, no final dos anos oitenta, de sociedades europeias. Aqui não se tem a hombridade de reinventar o humanismo, a verdade, uma forma de viver acima de todas as hierarquias. 

O drama, num crescendo, transformara-se num pesadelo com a noção de "autorizaçao" do plano de saúde. Não há agência reguladora capaz de colocar essa regra abaixo, tamanha a falta de compostura, tamanha a ganância e a mesquinharia das gerências desses planos. Os procedimentos precisam ser "autorizados" pelo plano antes de qualquer agendamento do exame. Não basta somente o pedido do médico. É preciso a humilhação de amargar minutos intermináveis ouvindo uma musiquinha ao telefone, explicar ao atendente a coisa toda para que o plano 'autorize' o exame, a consulta, a cirurgia. 

"Mas a gente já não paga o plano há anos, por que é necessário autorização de um procedimento já garantido no contrato? Para que tanto jogo de empurra empurra"? Perguntou, ingênua e sem forças para argumentar. "Só recebo ordens, senhora, são as normas do plano, sinto muito". Ela aquiesceu, desimportante, como costuma ser todo doente precisando do plano de saúde. Esperou a autorização. Que veio, três dias depois. 

O que era um drama, que virou pesadelo, agora assumia premissas de roteiro de filme de terror. Mesmo com a autorização, o hospital se recusava a dar andamento ao pedido do médico. Alegava que na carteira do plano estava escrita a palavra "básico". Plano básico. "Não realizamos ressonância magnética em quem tem apenas plano básico, senhora". 

A mulher foi à loucura, novamente. A vontade que dava, isso era visível, porque era possível ler a mente de uma pessoa nessas circunstâncias, saía já dos limites de rogar uma praga e  passava pelo desejo de jogar uma bomba ali. Se aquela máquina, com toda a certeza comprada com empréstimo de dinheiro público do BNDES, não servia para ela, não poderia servir para mais ninguém. 

Eles tinham a máquina mas se recusavam a dar prosseguimento, mesmo com a autorização, pois a mulher era uma desvalida, com apenas um plano chamado de básico, que não supostamente cobria os custos de uma ressonância magnética:   R$ 749,00 por uma fotografia tirada com um ímã passando pelo local a ser examinado. Resignada e combalida, voltou, derrotada, para as antigas mezinhas, ao tempo em que não havia ressonância magnética para dar lucro a empresas farmacêuticas. Um banho com água de mastruço no local lesionado. 

Relatou o ocorrido ao médico, e implorou para que ele arriscasse um diagnóstico sem que fosse preciso ressonância. Não tinha dinheiro para tanto. O médico branco, frio e corajoso, topou o desafio, disse que seria preciso examinar novamente o local, apertando o máximo que pudesse para, com a mão, entender se havia algum osso se comportando de maneira diferente do que era o normal. Ela aceitou a dor. O médico apostou que havia uma fratura e recomendou os procedimentos necessários para a cura. 

Depois, ela soube com uma certa amagura, que o hospital faria o exame se o plano de saúde fosse Multiplex, Plus Cobertura Total, Prime, termos vagabundos como esses, que so se prestam a hierarquizar quem pode ser maior do que o outro. Quem pode se diferenciar do outro por ser prime, por ser plus, por ser multiplex. 

Ainda bem que pobre também envelhece, pensou consigo mesma. Ainda bem que tem rico, mesmo sendo diferenciado pelos primes da vida, que morre aos cinquenta, aos sessenta anos. Ela se vingava mentalmente nesses termos. 

Por que não se inventa a noção plano de saúde genérico, sem plus ou primes que hierarquizem o ser humano, para que todos possam ser anônimos e indiferenciados na hora de ser atendidos pelos serviços de saúde? 

Um filósofo, que pensa de forma vagabunda, argumenta que não existe "almoço grátis". Dá vontade de mandar matar quem usa essa frase. Isso não é argumento, pois, quando a justiça autoriza qualquer porcedimento médico no Brasil, logo o "almoço grátis" aparece, e os planos e as instituições não quebram por isso. 

Uma cova aberta espera quem tem Unimed prime, ou multiplex, ou cobertura total. Esse é o consolo de quem apenas pode ter um "plano de saúde básico". A medida de todas as coisas no atendimento médico no Brasil precisa ser a quebra das hierarquias, pois não existe baço de pobre e baço de rico - somente baço de um ser humano.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 12h36
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O golpe do abaixo assinado

Nada mais covarde do que um abaixo assinado a favor ou contra uma causa. Comportamento de gangue, em que um se esconde acima ou abaixo da assinatura do outro. Na mistura dos nomes, todo mundo se torna um anônimo ali - todo mundo sabe que, no grupo, um ser humano individualizado será protegido pela força do bando. 

Um abaixo assinado retirado da manga do colete de pessoas de um Departamento que sempre gerenciaram o esgoto pedagógico das gestões anteriores deixa qualquer pessoa de sã consciência com o ovo virado: é a articulação para tomar de assalto o poder novamente. 

Usando linguagem típica da vulgaridade das pessoas dali, é o rearranjo das pedras do dominó assumindo posições para saciar a sede de poder que não tem fim daqueles que sempre mamaram, mas agora estão temporariamente fora da boquinha. É a serpente chocando novamente o seu ovo. 

Ninguém daquele Departamento nunca se preocupou com qualidade de educação "porra nenhuma" ali. É todo mundo caladinho, recebendo o seu salário fácil, ministrando aulas infantilóides de Didática, Estrutura, Estágio, Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Linguística, Biologia, Trevos Verdes - didática da falsidade, sobrevivendo num curso de pedagogia e num curso de letras tendo a morte como emblema. 

A cidade nunca vai conseguir se reerguer tendo um departamento de humanas como aquele. Uma gente vagabunda paga para pensar mas que prefere humilhar seus concidadãos com os seus carros e com os seus salários. As gerações futuras vão olhar para o passado daquele Departamento e farão um enterro póstumo da memória daquelas pessoas, com a devida e necessária redundância. Nunca se viu numa universidade pública um curso de letras e um de pedagogia,  de biologia também, reunir tanta gente conivente, desimportante e fria como ali. 

Individualistas ao extremo, e agindo com comportamento sorrateiro, colocam Deus na frente de tudo. Um Deus egoísta, centrado em si mesmo. A sorte dessa gente crente e católica dali é que Deus não existe, pois, se existisse, essa gente estaria ferrada. 

Deus arrebataria um chicote, entraria no templo daquela gente,  e expulsaria todos dali, com perguntas bem simples: 'por que usam o Meu nome para defender as suas causas egoístas?'  'Por que clamam por mim para defender o ódio?' 'Onde estão, nas passagens dos evangelhos relatando a vida do Meu filho, textos e falas condenando quem quer que seja por seus comportamentos sexuais?' 'Por que votam nesses prefeitos e prefeitas com ideias saídas do inferno ideológico e invocam o Meu nome para angariar poder para eles e para elas?' 

Quem vai dar crédito a gente que nunca escreve uma linha sobre nada? Quem vai confiar nesse abaixo assinado agora? Vivem como classe média sem nunca se preocupar com a dor dos que estão ao redor. Aliás, zombam da dor dos que estão ao redor. A única coisa de que são capazes é publicar fotos no Facebook; retratinhos de Nossa Senhora Aparecida; exibindo-se com total despudor. Não constroem mundos nos quais o conhecimento seja fonte de humildade e compaixão. Nunca tiveram solidariedade com ninguém. Apossam-se de bolsas de PARFOR, de PIBID, de pós doutorado, de PIBIC, abono permanência, coordenações daquilo, assessorias disso, pró reitorias daquilo outro, surrupiando o estado ao máximo que podem sem nada em troca. Gente malfazeja. 

Um abaixo assinado em prol da educação da cidade é um truque sujo. Golpe baixo. A educação daquele município, e de todos os outros, precisa de uma reflexão corajosa e contínua. Vou dar uma lição de cartilha para quem pôs o nome lá no abaixao assinado, servindo de massa de manobra, pau mandado dos vilões que querem voltar a surrupiar de novo o orçamento da Secretaria de Educação do Município: no jogo do pensamento, é impossível ter amigos. Não faça amigos se você quer que algo de bom acontença a sua comunidade: "ver duro e cru, em si e nos outros, para ser capaz de ver justo e bom" (Nietzschie). Mantenha a sua mente livre para dizer o que seja necessário ser dito, mesmo que isso machuque os que estão ao seu redor. Faça como Aquele que nasceu numa manjedoura - 'por minhas ideias, não reconheço pai, mãe, o diabo'. 

A lição mais importante de todas, contudo, é a seguinte: “Aos primeiros (aos que o condenaram), Sócrates afirma não ter se arrependido do modo como se defendeu e profetiza o castigo que hão de sofrer – a intensificação dos questionamentos que queriam eliminar. Aos segundos (aqueles solidários com ele), diz imaginar que a morte deva ser um grande bem, seja ela um sono tranquilo ou o convívio no Hades com os grandes homens que lá habitam” (André Malta). 

Com gente que 'pensa' por abaixo assinado, a cidade está condenada ao esgoto para sempre. Assinam o papel e vão embora para o silêncio de suas existências mesquinhas, de Facebook.  Gente falsa, inescrupulosa. Cidade triste.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 13h31
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Nilton Lavigne enfim revela sua vida mimada (Parte 1)

 

 

 

Demagogia, deslumbramento e auto indulgência, sendo pernóstico agora, estampam  atitudes anti filosóficas por excelência. E este conjunto de rascunhos de redação de quinta série – “Traços das minhas vivências” –  lançado contra nós pelo antigo e aposentado professor de filosofia da UESC, Nilton Carlos Borges Lavigne, deveria permanecer amarelando num fundo de gaveta qualquer, dado o alto grau de... demagogia, deslumbramento e auto indulgência. 

 

Mas é sempre bom que algo desse naipe aconteça para que se prove (a atitude científica e cartesiana ainda tem muito a revelar sobre este mundo) o quanto o meio editorial e das letras de Ilhéus e Itabuna, sempre indigente de pessoas que saibam  pensar direito, soçobra numa espécie de esgoto da imaginação há anos.

 

A demagogia da coisa toda começa já na Apresentação, quando ele encarna o espírito de Odorico Paraguaçu: “Me cobravam um livro. Amigos e conhecidos. Nunca me convenci”. Parece (tenho certeza de que não é só aparência) político do DEM – “o povo sempre clamou para que eu disputasse a eleição, e aqui vou  eu rumo à construção das bases de uma real melhora da vida do nordestino pobre sofrido. Sou candidato a pedido dos correligionários, dos amigos e conhecidos” (socorro!).

 

Certa vez dei de cara com Waldir Pires em porta de um shopping daqui de Salvador: “Waldir Pires, como vai?” Ele aperta a minha mão; olhos miúdos e sem óculos boiam sobre mim; dentes brancos e naturais sorriem revelando a cara de quem fatura mais de R$ 20.000,00 por mês, e diz: “Tudo bem comigo”. Esse tipo de gente não sabe ser natural nunca, vai logo fazendo discurso: “Assumi uma cadeira na Câmara Legislativa de Salvador para dizer algumas coisas por vocês lá”. Retruquei: “Veja se você fala lá alguma coisa por você também”. O sorriso amarelou e nos despedimos.

 

Alguém em sã consciência acredita que um pedido como esse seria feito a Nilton Lavigne? Aliás, somente os cupinchas desse tipo de gente é capaz de mentir para que eles lancem algo, digam algo, esclareçam algo. Compadrio típico desses departamentos de Filosofia das universidades estaduais baianas – e o Departamento de Filosofia da UESC figura no topo da lista –, sempre à disposição de dois tipos de pensamento: do tomismo e do carlismo.

 

Nunca se vê gente desses departamentos escrevendo algo nos jornais ou lançando papers refletindo sobre a miséria moral e material que nos consome. Retomam os grandes da filosofia europeia para nos enganar e nos iludir. Assumem “as grandes” questões desse mundo e se esquecem do miúdo dos vilarejos e bairros onde vivem. Sempre de olho no salário fácil depositado no fim do mês em suas contas pelos governos dos quais sempre puxaram o saco. Tristeza. Derrota total!

 

A estadualização da UESC aconteceu sem uma palavra desses professores de filosofia dos anos 1980 no Sul da Bahia. Todos caladinhos arrotando socráticos e pré socráticos, existencialismos alienígenas e fenomenologias superficiais  num jogo de fantasias. Traição total aos ideais da filosofia. Atravessadores do pensamento alheio. Gente carlista interesseira.  Sempre foi assim.

 

O deslumbramento dá o tom desde a primeira frase da Apresentação desses exercícios de produção de texto de Nilton Lavigne: “Escrevo desde que me lembro de mim fazendo alguma coisa. Pintar veio mais tarde, na adolescência”. A vírgula depois de “mais tarde” e antes de “adolescência” tem muito a dizer sobre como desesperados métodos de babatar para sair da lama do anonimato naufragam e afogam, e o que resta é afundar mais ainda no anonimato e no nada que sempre esteve presente no arcabouço de suas próprias vidas. Pressupõe-se que ele já tenha nascido com um lápis na mão, já que o “mais tarde” é ainda a adolescência. Dá pena a decadência humana. Ele não sabe, mas vai saber agora: amor e morte compõem a soma de todas as vidas. O silêncio de certos professores de filosofia sobre certas coisas ao longo de suas carreiras, contudo, é uma espécie de aposta sorrateira apenas na morte.   

 

Em qualquer parágrafo da página 19 podem ser encontrados pronomes como “me”, “mim”, “minha”. Quem diz escrever desde garoto, e comete esse tipo de frase primária e narcisista, com esse tipo de egocentricidade ainda na terceira idade, nunca aprendeu a escrever direito. Quem de fato escreve há muito tempo, como exercício constante e contínuo, tende a evitar armadilhas textuais como essas. E quando chamo esses textos de redação de quinta série, ao parecer veneno, na verdade, são isso mesmo: só alunos começando sua lida com redação não conseguem a sutileza exigida em frases na composição de um texto.

 

Sei que é praticamente inacessível conseguir as metáforas quase impossíveis de um Graciliano Ramos, as mais belas em língua portuguesa jamais escritas. Mas alguém que arrota ler e escrever a vida toda pelo menos deveria aprender algo com Graciliano: “Escrevo como as lavadeiras lavam as suas peças de roupa nos leitos dos rios. Elas batem, batem, batem a peça na pedra até retirar todo o sabão, e colocam-na para secar ao sol. Torço e enxugo uma frase até que ela pareça digna de ser publicada”. Ele não disse exatamente isso, mas disso algo nesses termos.

 

A auto indulgência se revela nesta frase do texto de Apresentação: “Ler e escrever são atos que me fascinam. (…) É emocionante ler. (…) Lápis e caneta são instrumentos com os quais convivo desde que fui alfabetizado. (…). Deu certo”. Com frases como essas, como se ele estivesse num pedestal de glórias literárias (‘deu certo’), revela-se  o tipo de professor que dava o ‘tom’ pedagógico naquela faculdade de filosofia – gente auto indulgente, circulando em torno de seu próprio umbigo.

 

Essas frases revelam algo mais profundo: revelam um tipo de analfabetismo fundante, instituído, pragmático e individualista, e uma espécie de filiação a um pertencimento de classe. Revelam um tipo de covardia intelectual, e revelam uma ilusão – a ilusão de achar ter ‘lançado’ um livro que pode ser útil para algo, algum dia. Não vai ser. Nunca. Quem dará importância a existências mimadas? Quem dá valor a vidas perdedoras?  Só gente leitora da revista  Caras terá grau intelectual básico para admitir ter lido Nilton Lavigne e levado a sério tanto desperdício de lápis e de caneta.

 



Escrito por BRAULINO SANTANA às 14h56
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Narciso tem conta no Facebook

 

O perigo nasce com o filósofo. O filósofo grita que vivemos numa sociedade de mimados – filósofo que grita é o mais perigoso de todos. Aparentemente manipulando a razão, essa frase foi dita logo abaixo de críticas sobre a atuação de ativistas de direitos humanos contra a homofobia, e em particular, contra a permanência do pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara de Deputados Federal.

 

A ideia, construída com raciocínio truculento comum ao filósofo, é pressupor que gays, bichas, viados, sapatas e outros infelizes, que tiveram o azar de nascer com desejos desviantes numa sociedade heterocentrada, trata-se de seres que se ofendem por um beliscão, uma palavrinha de nada, um vento ameno que passa, eternas vítimas, portanto, de invenções de coisas abstratas como homofobia e  lâmpadas por cima da cara na Avenida Paulista.

 

Essas bichas acham de sofrer – afinal, sofrer sempre é lucrativo – por qualquer coisa. O fato de lutarem por lei que proíba serem discriminadas gratuitamente, como já existe para mulher e para negro, e até para judeu, é a atutude de mimadas.

 

Vivemos numa sociedade de total abandono e brutalidades. O afeto e a compaixão saíram de cena, e deram lugar à truluência e à dissimulação para lucrar com a anulação dos conflitos.  Os canais de negociação e mediação das divergências são constantemente desacreditados, tratados como se fossem idiossincrasias de bichas malucas, mimadas e insensatas. Os telefonemas na calada da noite, ou em horas de sol a pino, substituíram o debate público, a livre circulação do pensamento. Vivemos numa socieadade interditada pelas redes sociais.

 

Quem tem conta no Facebook é narcisista, e emula o mundo vazio das celebridades. O Facebook encaminha as mentalidade para os individualismos. Gente desocupada postando fotos de si mesma. Os conflitos repousam em algum lugar do peito, escondidos em forma de fracasso: nunca vi ninguém fazer auto crítica, não existem divergências no Facebook. Ali repousa o mundo perfeito. Nas fotos, está todo mundo sorridente, muita gente com latinhas de cerveja na mão. É o lugar ideal para a manutenção de um tipo de voz social que corroi a alma pois expõe os sorrisos deslumbrados, e humilha as carências alheias, pois todo mundo quer mostrar integração modelada por photoshop.

 

Por isso, a atitude Facebook da idosa militante comunista rindo com a maior facilidade para todo mundo, como se fosse a garota Bradesco. É a mãe que abraça e acalenta, e cobra o voto depois. Por isso, a pastora evangélica flagrada com dinheiro na calcinha (e dentro da Bíblia) acalenta as suas ovelhas com a voz macia, traiçoeiro como costuma ser esse tipo de militante evangélico, e exige o dízimo depois. Está todo mundo contaminado com o jeito Facebook de ser: o lado “A” sempre à mostra, o rabo escondido para não assustar os incautos.

 

O que há de mais devastador nessa atitude, que afunda a sociedade, derrubando-a dentro de uma armadilha da qual ela não consegue escapar, é que não fundamos relações baseadas na verdade e no bem público. O sorriso da militante comunista, por exemplo, vai ao encontro das carências mais profundas; ela sabe que as pessoas precisam de um sorriso, e de um abraço, e dá o que as pessoas necessitam, joga com os afetos e escamoteia os conflitos, não enfrenta o debate público, e prefere anular as relações de confiança em nós mesmos, na medida em que vende a imagem de que quem detém a confiança é ela própria. E muitas vezes nos perguntamos: por que isso não acontece comigo? Por que eu não fico linda, maravilhosa, sempre refrescante, com o meu cartão de crédito a postos para poder comprar o que eu quiser, dirigindo o meu carro e dando moedas para os flanelinhas? O que foi que eu fiz de errado? Por que o meu paninho do banheiro sempre vive com uma sujeirinha de limpeza de sapatos de lama, e o paninho do banheiro da classe media sempre está alvinho?

 

As manifestações contra a corrupção, por exemplo, arregimentadas pela atitude Facebook de ser, não são capazes de desvelar os nomes de corrompidos e corruptores, já que, com medo de processos na justiça, e sem a mínima disposição para enfrentar a falta de liberdade de expressão, as pessoas preferem o conforto de seus lap tops. Na cidade mais evangélica do mundo, a militante comunista sorri, como se fosse uma hiena gripada espirrando, mas nunca, jamais vai ter a coragem de enfrentar o lobby evangélico contra direitos de mulheres. Ela é dasafiada, por exemplo, a fazer uma campanha contra a isenção de pagamento de impostos, privilégio que essas igrejas mantêm para lucrar ainda mais com a ignorância alheia.

 

Não é capaz de uma palavra sequer contra a postura de classe da justiça, que é cega para o que não quer enxergar. Aceita se organizar em hordas, nos braços das multidões, a defender valores que solidifiquem os canais de filtro político na sociedade brasileira.  Nunca, jamais uma palavra sobre a deficiência dos transportes na cidade evangélica. Nunca uma palavra sobre a distância entre as carências sociais da cidade e a universidade onde é professora. Estendo essa última frase ao comportamento da maioria dos professores dali: gente que só pensa em receber os salários no final do mês, acrescidos das vantagens de que goza como se fossem esmoleres disputando moedas de transeuntes.

 

De atitude em atitude como essas, a cidade se afunda no mais angustiante abismo social. Mas a vingança não tarda nas urnas: a demonização a que a classe média submete o governo Dilma Roussef, descaracterizando os programas sociais como o bolsa família, não surte muito efeito – o lúmpen vai continuar apoiando o governo Dilma porque sabe que pode contar com ele como aliado. O lúmpen nem liga para o Facebook porque sabe que reina nessa rede social a frieza dos sorrisos das fotos em que somente o lado “A” de cada um é exposto.

 

Por isso,  a sociedade odeia professor, dentre outros motivos, porque ela não espera de determinados professores sorrisos falsos oriundos de pessoas cujos salários que ela mesma banca – a sociedade espera que os intelectuais  a protejam das investidas dos egoísmos de instituições como a justiça, sua morosidade e o sua ação sempre em favor de reintegração de posse para especulador de terrenos (em contraposição, a justiça americana confiscou o apartamento da brasileira proxeneta envolvida nos escândalos de prostituição em New York); da ausência do poder público; da ineficiência dos serviços sociais; da descompostura dos fundamentalismos religiosos; dos privilégios dos bancos; da ganância das empresas de telefonia.

 

Num mundo tão carente de afeto, e isso acontece no Brasil todo, constata uma amiga, o maior carinho que pode ser distribuído a um ser humano é a demonstração de nossas fraquezas, e o enfrentamento, sem medo, das injustiças sociais de que somos vítimas constantemente.

 

Escamoetar o conflito social com o véu dos retratos postados nas contas do Facebook, como se todos almejássemos a condição de celebridades, é um passo gigantesco rumo à deterioração social por completo. Nas fotografias postadas em Facebook, os sorrisos escondem uma tristeza.

 

 



Escrito por BRAULINO SANTANA às 12h15
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A Bíblia também é gay

 

Quando há uma predisposição para a homofobia, que tem sempre raízes mais sociais e ideológicas do que psíquicas, assumindo hegemonia em determinado espaço público, logo é preciso o discurso de autoridade ou a lógica racional mal costurada para fundamentá-la.

 

Logo é preciso recorrer à suposta tradição de costumes ocidentais enraizados para tentar iluminá-la, inventar-lhe um argumento cultural para transformá-la  em “tenho liberdade de expressão, o direito de achar o que quiser sobre relações e pessoas homossexuais”, traduzir-lhe em um suposto estofo cultural alicerçado em discursos variados, que vão da ciência à religião, passando pelo liberalismo e pela antropologia. Constroem-se certas racionalidades aparentes para considerá-la palatável. Como se sabe, o ódio precisa de chão fertil para se firmar e permanecer agindo sobre os outros.

 

Quando uma das irmãs evangélicas – a mais gorda delas, o cabelo duro, com alguns fios esbranquiçados misturados ao restante, e repuxados num coque amarrado de fita de chitão comprada na feira, o sorriso desdenhoso e com ar de superioridade hétero, debochada como costumam ser essas pessoas eleitas por Deus como o povo com o céu já garantido – me disse: “lá na nossa igreja, tem um, lá… um gay… o pastor ora por ele… a gente não discrimina, não, a gente aceita contanto que a pessoa tente mudar de vida… a gente não admite certos comportamentos, a pessoa tem que mudar, realmente”,  me deu vontade de vomitar na cara dela, mas me contive. Senti estar diante de um ser que, já, já, vai ser esquecido para sempre, os ossos vão se misturar com a lama de onde veio, e será nada mais que alimento para as minhocas  e as formigas, e para os seres que jamais conheceram o que significa elevar-se de sua maldição de rastejar-se sobre a terra até o fim de seus dias.

 

Mirei bem a infeliz, e percebi também estar diante de mim a porta-voz do ódio mais difícil de combater: é aquele oriundo da moralidade simplória, o ódio do povo, geralmente destilado em multidões,  gente brandindo as certezas mais absolutas e inelutáveis, aquelas vindas do vazio e da inutilidade da ideia de Deus construída sob moralidades arcaicas e absurdas. São pensamentos que tem em sua origem  vândalos ideológicos.

 

Ingênua, parecendo aquelas bonecas com cabelo de plástico  que se compram a preço de banana nas feiras livres do sertão mais profundo, o cão começou a recitar trechos da Bíblia. Ela recorria ao discurso de autoridade religiosa para amparar os seus supostos fundamentos  – defendendo a “sua liberdade de expressão para achar como devem ser as outras pessoas”, quais os comportamentos que, na sua lógica doentia, devem ser impostos como comportamentos para todos. Lá vem os trechos mais batidos e vomitados sempre por essas hordas: o Levítico e as epístolas do Apóstolo Paulo aos Romanos e aos Coríntios.

 

Saquei da estante a minha surrada Bíblia das Edições Paulinas e fui, pela enésima vez, aos trechos do ódio e do ressentimento anti desejos sexuais nada mais nada menos  que… humanos:  “Não dormirás com um homem como se dorme com mulher. É uma abominação”, (Levítico, 18,22). E a condenação por esse tipo de comportamento vem com as tintas mais tirânicas que uma mente humana jamais produziu, capítulos depois (20, 13): “Se um homem dormir com outro como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação e serão punidos com a morte: seu sangue cairá sobre eles”.

 

Historiadores tentam salvar discursivamente atentados contra a dignidade humana produzidos por sequências textuais como essas: “O contexto histórico em que tais prescrições foram enunciadas permite compreender melhor sua severidade: após sua libertação do Egito, o povo de Israel foi obrigado a editar normas estritas, destinadas a garantir sua sobrevivência demográfica e cultural. Os alicerces patriarcais do povo judeu encontrar-se-iam, efetivamente em perigo, se viessem a disserminar-se outras práticas além da relação com mulheres. Essa dupla necessidade – preservação biológica da comunidade dos eleitos e conservação cultural da sociedade patriarcal – explica a hostilidade contra as práticas homossexuais”, (Daniel Borrillo, 2000). No decorrer da história, e sobretudo no século XX, o povo judeu tragicamente percebeu quem eram os seus reais inimigos.

 

“Não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não vos iludais: os fornicadores (imorais e libertinos, na tradução da Bíblia editada pela Vozes), idólatras, adúlteros, depravados  (efeminados, na Vozes), sodomitas (pederastas, na Vozes), assim como  ladrões, avarentos, beberrões, caluniadores ou estelionatários, nenhum desses herdará o Reino de Deus”,  (Primeira Epístola aos Coríntios, 6,9-10) ou “Os homens, também, abandonando a aliança dos dois sexos, que é segundo a natureza, arderam em um desejo brutal de uns pelos outros, o homem praticando torpezas detestáveis com homem, e recebendo, assim, em si mesmo a merecida punição por sua cegueira”,  (Epístola aos Romanos, 1,27). Essas palavras tão antigas, não nos esqueçamos, foram escritas pelo Apóstolo Saulo de Tarso, um assassino com crise de consciência pensando que a história iria perdoá-lo pelos seus ódios e fracassos como ser humano – quando se se fracassa como ser humano, o primeiro caminho a ser procurado é assumir a ideologia cristã como se fosse possível apagar o passado por intermédio do sacrifício e da alienação da memória coletiva. Nenhum neo convertido irá conseguir zerar o que ficou para trás, sempre haverá alguém para reparar nos erros passados e compará-los aos erros futuros. A redenção não é da natureza humana – assombrados e com um frio na espinha,  ao espiar o caixão que desce à sepultura, nós nos damos sempre conta de que tantas ideias,  tantas moralidades, tantos reordenamentos  em nome de quaisquer deuses que inventarmos para segregar os outros, nada, nada mesmo adianta: estamos atados aos nossos futuros trágicos, vítimas e algozes.

 

O Apóstolo que inventou e sistematizou a homofobia para a tradição cristã não passa de um assassino baixo, e sempre terá o seu nome escrito ao lado daqueles que praticaram as atrocidades que marcam a história humana na face da Terra.

 

Nessa sequência de desenganos, se Jesus tivesse proferido uma palavra sequer com conteúdo homofóbico, tenho plena convicção de que estaríamos confinados a campos de concentração até hoje. Mas aquele que ficou conhecido como o Mestre prefere amar, e amar de uma forma sem limites, como nesta passagem: ”Um deles, a quem Jesus amava […] inclinando-se sobre o peito de Jesus…”,  (João, 13,23-25). Grandes herois bíblicos viviam e confessavam suas paixões homossexuais, como Davi e Jônatas (Samuel, 18,20-41); Rute e Noemi (Rute, 1,-16-17). Convoco crentes e pastores evangélicos, velhos aberrantes do clero católico, ex padres fornicadores, bispos católicos usando batinas sem cuecas,  que distribuem o ódio, e cobram caro por isso, a repousar suas cabeças, em público, sobre os homens que eles amam. Assumir uma vida cristã é assumir Jesus por inteiro.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 15h12
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O slogan perfeito

 

Antigo, e sempre verdadeiro, e mais do que nunca atual, sobremaneira necessário, o slogan “Rede Globo, vai tomar no cu” voltou com a força que a mídia racista, traiçoeira e anti pobre merece.

 

A rede de televisão que há mais de quarenta anos vem fazendo faxina étnica no país, criminosa e impunemente, teve o seu boneco Caco Barcellos expulso pelos manifestantes das últimas e refrescantes passeatas que assombraram o país essa semana – quem ajuda a trair e a manipular que vá “tomar no cu”.

 

O recado da multidão indignada ecoou Brasil afora e respingou em professor, seja universitário ou não, que vê novela ou se informa pelo Jornal Nacional, pelo Jornal da Record, da Rede Bandeirantes ou do SBT, por esses canais de televisão da mídia golpista. Odeio televisão, e tenho o maior ódio de mim mesmo quando perdia o meu tempo dando ibope a esse tipo de veículo de comunicação sempre racista e sempre homofóbico.

 

São incontáveis os episódios sujos em que o veículo da família Marinho já esteve envolvido: a manipulação aberta contra as Diretas Já; a campanha traiçoeira que elegeu Collor; as eternas novelas e os programas sem uma pessoa negra sequer; a promiscuidade com os anunciantes de creme dental a refrigerante, de sabão em pó a carro sem uma pessoa sequer com sotaque do Nordeste e muito menos de pele escura; os episódios de homofobia bandidos.  A Rede Globo nutre ódio profundo a pessoas de pele escura e de cabelo ruim.  

 

Professor que assiste novela ou vê televisão deveria ser exonerado a bem do serviço público, ou demitido por justa causa. Não pode ficar à frente de uma sala de aula um profissional rendido ao ódio e conivente com o racismo.

 

Certa vez, lá nos idos dos anos 1980, tropeçando os primeiros passos na universidade, tive um professor mulato Pai de Santo, um cabotino alienado que fingia dar aulas de Língua Portuguesa. Pois o diabo era danado no vício de ver novelas da Rede Globo. Sabia de cor o enredo e o disse que disse noveleiro todo. Tenho forte intuição de que já nasci salvo, senão, estaria chafurdando na lama da memória onde ele se encontra hoje. 

 

O que ensina esse tipo de gente? Ensina o ódio, o medo e o ócio. Ensina que tudo deve ficar nos devidos lugares. Ensina que a sociedade de classe brasileira deve se fixar nos moldes da sociedade de casta hindu. Que, se se nasce pra servir, é pra servir que se deve permanecer até o entardecer dos nossos dias – como o Pai de Santo noveleiro que um dia tive a infelicidade de ter como professor.

 

A descrição que o menino Graciliano Ramos fez de um professor da sua infância serve à perfeição para esse Pai de Santo também: “O infeliz não pretendia ser homem. E ali estava, sucumbido, enxofrado, ressumando peçonha. Os olhos ensanguentavam-se, os dentes rangiam. E consertava-nos furiosamente a pronúncia, obediente a vírgulas e pontos, forçava-nos a repetir uma frase dez vezes, punha notas baixas nas escritas, rasgando o papel, farejava as contas até que o erro surgia e se publicava com estridência arrepiada (…)  Ele não tinha lugar definido na sociedade. Para bem dizer, não tinha lugar definido na espécie humana: era um tipo mesquinho, de voz fina, modos ambíguos, e passava os dias alisando o pixaim com uma escova de cabelos duros. Azeite e banha não domavam a carapinha – e o dono teimava, esfregava-a constantemente, mirando-se num espelho, namorando-se, mordendo a ponta da língua. Era feio, quase negro – e a feiúra e o pretume o afligiam. Porque tinha senso de beleza, mas procurava-a loucamente no seu corpo mofino. Friccionava-se, empoava-se, arrebicava-se, examinava-se no vidro, entortando os bugalhos estriados de vermelho”. Essa gente de santo na Bahia parece que tomou o chicote da mão dos capatazes para açoitar gente que não sabe se defender. Prefere sempre alianças com o carlismo, com a Rede Globo e com os representantes no poder a respeitar a própria história do povo negro. É a história colonial que agoniza mas permanece viva no Brasil.

 

E o capítulo da história colonial tem mais uma página preenchida ali naquela universidade. O movimento estudantil dali tem atuação que envergonha a tradição histórica de resistência dos estudantes no Brasil, deixando o lugar onde eles estudam morrer de fome ideológica. Submetidos, porém, a estudos com  professores que viram as costas para os pobres e abrem os dentes para a racista Rede Globo, principalmente naqueles cursos de humanidades de Letras e Pedagogia, o que esses alunos aprendem? Aprendem a reproduzir a ganância, a estupidez e a ignorância dos seus próprios mestres.

 

Ter sido alunos daqueles professores de Pedagogia forma mentes ora autoritárias, ora subservientes. Enquanto o Brasil alerta vive o Levante da Catraca, a cidade dorme o sono da morte no maior conforto. Quem recebe os seus salários públicos age como se nada estivesse acontecendo, e corre para pagar o cartão de crédtio em dia. Descansa, pouco se importando com a lama que rodeia tudo. Vive o suicídio coletivo. É o desastre, como se, estacionado numa linha do tempo, espera envelhecer como as moças descritas em Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre: “No século XVII, notara em Pernambuco um observador holandês que as mulheres, ainda moças, perdiam os dentes; e pelo costume de estarem sempre sentadas, no meio das mucamas e negras que lhes faziam as menores coisas, andavam ‘como se tivessem cadeias nas pernas’, sem a agilidade das holandesas. Mawe, nas viagens pelo interior do Brasil, surpreendeu nas mulheres a mesma tendência para, ainda novas, perderem a vivacidade. Mrs Graham, na Bahia, notou que elas se tornavam ‘almost indecently slovenly, after very early youth’”. Não entendo como tanta gente jovem, com direitos e salários garantidos, com estabilidade no emprego e tudo “faz a pêssega”. “Fazer a pêssega” na linguagem gay significa atuar com ar blasé para a realidade ao redor. Prefere ser cúmplice de tudo isso que aí está a tomar uma atitude contra tudo isso. Cúmplice é pouco – construtores da abominação. É a aberração total!

 

Nunca vi na minha vida uma universidade praticamente natimorta, com gente interessada apenas em ocupar coordenações de Plataforma Freire, pró reitorias, inchar de forma duvidosa curriculum lattes (qualquer dia desses vou deletar o meu inútil curriculum lattes – “CAPES E CNPQ, vão tomar no cu”), mamar as benesses de bolsas disso e bolsas daquilo, humilhando quem nem salário mínimo recebe na cidade.

 

A recente reformulação do curriculum do curso de Educação Física deixou de fora todas as disciplinas da área de humanidades, e ficou tudo por isso mesmo. Nenhum antropólogo, nenhum cientista social, nenhum pedagogo, nenhum sociólogo, nenhum professor de Filosofia ou de Letras, nenhum historiador - ninguém foi capaz dizer uma palavra sequer contra uma atitude tão desrespeitosa quanto essa desse curso de Educação Física. Sendo bem franco, uma atitude criminosa contra a já precária reflexão sobre as condições de referencial humano na cidade e no seu entorno. Esse pequeno exemplo mostra o total menosprezo que esses profissionais dessa universidade nutrem contra o pensamento, centrados que estão somente em abocanhar os seus salários no final do mês. Pouco se lixando para os destinos do ensino universitário público. Cobras. A cidade está praticamente nas trevas, entregue a gerentes e formadores lacaios. Essa gente vive a loucura de um tempo da mais completa busca por saciedade de bens materiais, por acumular tudo pela frente. Lugar de valores totalmente invertidos.

 

Há o sofrimento dos motoboys, jovens que, sem perspectiva, atiram-se na aventura de pilotar uma moto para defender o pão. “É o lugar onde existe o maior número de acidentes graves envolvendo motoqueiros na Bahia”, relatou uma vez um enfermeiro. E ninguém ali naquela redoma universitária liga pra isso. A primeira coisa a ser construída ali, diante de tanta dor e iniquidade, deve ser um Muro de Lamentações, diante do qual, motoboys, pobres, viados, sapatas, travecas, garis, comerciários, feirantes, prostitutas, maconheiros e diaristas, em uníssono, recitarão o slogan: “Vão tomar no cu”.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 00h02
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Evangélicos ressuscitam ideais nazistas

(Dedico este texto a Marivone, a Stefânia e a Jurgen, cristãos de fé verdadeira)

 

Um dia, resolveram decidir o que é científico,  e ao invés de usar a pesquisa, o método e a mente, a tentativa de erro,  usam  para isso o ódio das cruzadas modernas, as certezas baseadas na demonização dos outros.

Um dia, como se não houvesse nada por construir no país tomado por protestos, resolvem legislar sobre o que é doença, o que seja a cura, como encontrar a enfermidade, qual o jeito certo de dispor as mãos para que não se “dê bandeira”, afinal, desmunhecar é atitude de herege.

Um dia, houve certas pressões, como se houvesse certo falso consenso, de que alguns deles, muitos de nós, fôssemos considerados incapazes, e, submetidos a tratamentos, reconsiderássemos a nossa forma de amar tomando o “prumo” de homem; recuperando a “feminilidade” esquecida pelas mulheres de bandeiras feministas.

É a volta triunfal das políticas higienistas do final do século XIX, capitaneadas por Lombroso e Nina Rodrigues – como se sabe, jeitos efeminados, modos de se vestir, a fornicação de homem se deitando com outros homens e mulheres roçadeiras ressuscitaram as inquisições da Idade Média em plena era moderna, e é isso que lacaios como Marco Feliciano, Anderson Ferreira (PR-PE), João Campos (PSDB-GO)  e a sua horda gospel desejam retomar.

A atuação da gang evangélica agindo no Congresso Nacional e impondo os seus valores contra pessoas homossexuais assemelha-se às políticas de Hitler contra o povo judeu. É como se Hitler legislasse para estabelecer que tipo de doença deva ser constitutivo do povo judeu.

O que mais horroriza nisso tudo é que não vemos as vozes dos evangélicos moderados contra o neo nazismo de Marco Feliciano. Onde estão as vozes da conciliação verdadeira? Onde estão aqueles que se dizem os verdadeiros cristãos, aqueles que dizem basear o seu modo de pensar e o seu modo de agir na construção de um mundo sem fronteiras, onde a diversidade e as formas de viver variadas se somam para fazer valer o espetáculo da existência humana?

Não se prega o relativismo do tudo é possível, tudo deve ser aceito como manifestação da existência. Sabemos muito bem que a miserabilidade da existência humana enlouquece e mina qualquer tentativa de entender a magnitude de ser uma pessoa humana, e a ideia de Deus pode socorrer certos corações em aflição. O que os cegos cristãos não querem enxergar há milênios é que as homossexualidades são expressões de desejo e sentimentos que já nascem com as pessoas homossexuais. Assim como é impossível aos heterossexuais retirarem de dentro de si a sua forma de amar, é igualmente impossível a homossexuais deixarem de ser o que são, abdicarem de sua forma de amar só por causa do desejo insano de deputados que, sem bandeira, aproveitam para continuar as suas carreiras de poder e delírio, alimentando a insanidade daqueles que, gratuitamente, não aceitam a diferença de amar. Parece uma orquestra. O ovo da serpente estava adormecido nas chocadeiras ideológicas desde a Segunda Guerra Munidal, quando nazistas impuseram a cura a homossexuais com tratamentos hormonais e sexo com prostitutas. Já pensou se, de repente, um grupo de bichas nazistas e um monte de sapatas ensandecidas resolvem impor suas homossexualidades a quem goza com o sexo oposto? Como se vê, sempre há espaço para o ódio mais baixo quando evangélicos assumem o poder. Derrota total!

Esqueçamos datas e momentos históricos, contudo, pois podemos ir e vir no tempo. Ora na Alemanha dos anos 1930, ora no Irã em 1980, ora no Brasil do pastor Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, que atentou, atentou e atentou e acabou aprovando o demoníaco Projeto de Lei de “Cura Gay”. Certos evangélicos agem em nome de Satanás.  

É incompreensível a obsessão em pautar projeto de lei instituindo doenças e apontando métodos terapêuticos. Que tipo de cabeça impõe esse tipo de projeto, atribuindo a si mesmo a função de Deus? Como é possível que uma parte substancial do país ainda se comporte, pense e legisle como se estivéssemos em terras de costumes morais medievais? Como homens legisladores como esses gozam de tantos votos e prestígio a ponto de mobilizar multidões brandindo o ódio de Bíblia na mão?

Ideais nazistas. Somente fontes discursivas e simbólicas oriundas das catacumbas de pensamento nazista conseguem dar vazão a atividades parlamentares tão inúteis e malfazejas.

Enquanto o país das ruas demonstra de forma inequívoca seus descontentamentos e desabafos sobre bilhões gastos em reformas e construções de estádios para jogo de bola, e hospitais públicos apodrecem em meio ao caos absoluto, mentes evangélicas doentes arquitetam as armadilhas neo nazistas para prender viado, sapatão e simpatizante. A multidão bem que poderia ampliar as suas bandeiras e invadir várias coisas: igreja de pastor evangélico que pensa em curar quem não precisa do remédio deles; universidades, para enquadrar aqueles cegamente preocupados apenas em saquear o estado via abono permanência, sem uma nesguinha de doação em troca, e mostrar para eles como o bem público está acima das suas ganâncias por dinheiro estatal; departamentos dessas universidades públicas para  mostrar aos profissionais de saúde o quanto eles estão distantes dos anseios e necessidades da comunidade; departamentos de humanidades para ajudar a retirar a trave dos olhos dos professores de filosofia e fazê-los enxergar a luta de classe, pois estão preocupados com abstrações pelegas como alma e divindade.

Gostamos quando os filósofos nos alertam sobre coisas como o eterno retorno, o recrudescimento da bestialidade adormecida, a recomposição dos estilhaços dos espelhos nos quais as nossas identidades, despedaçadas, caminharam rumo às tragédias que não se acabam. Gostamos quando os filósofos nos ensinam que nos repetimos em todos os lugares e em quaisquer tempos. Gostamos mais ainda quando eles nos fazem crer que repetimos sempre o que há de sombrio e enevoado em nós. O que há de mais abjeto e doentio em nós. Mas, para combater o recrudescimento das sombras, eles nos ensinam as lições mais básicas e elementares da aventura de ser um ser humano: “quando se luta contra monstros é necessário tomar cuidado para que não nos transformemos em um monstro também”. A alegria de Daniela Mercury vem nos ensinar como colocar em prática essa lição.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 10h44
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O ocaso do malandro lírico

(Parte 1, a parte 2 está logo abaixo)

(Comentando o filme “Madame Satã” na UNEB. Há indicações sobre sequências do filme que ilustram pontos de vista defendidos no comentário)

 

 

Bom dia a todos e a todas aqui presentes. Todas as vezes em que as luzes do cinema se apagavam, e a tela se iluminava, começando a projeção da película, o crítico de cinema americano, recentemente falecido, Roger Egbert, propunha a si mesmo um desafio: “O que foi que aconteceu comigo durante essas duas horas em que estive vendo esse filme”? A pergunta, aparentemente retórica, traz consigo uma lembrança que somente a era do cinema é capaz de trazer: uma tela de cinema é um espelho que impõe ao espectador olhar para dentro de si mesmo, e quando ele percebe, está diante de um outro ele mesmo duas horas depois. E “Madame Satã”, como nenhum outro filme brasileiro nos últimos 30 anos, cumpre o destino de ser o nosso mais cristalino espelho, e faz isso com uma beleza rara.

Estamos nos começos dos anos 1930, e somos apresentados a João Francisco dos Santos (JFS), lendária figura emblemática do imaginário do malandro brasileiro, que entrou para a história como Madame Satã (nome retirado do filme de Cecil B. De Mille, Madam Satan, de 1930). A cinebiografia flagra o malandro, sua vida, suas amizades e suas andanças pelos arredores da Lapa e suas formas de sobrevivência como artista transformista, capoeirista, cozinheiro, presidiário, pai e... marginal. João Francisco dos Santos passou a maior parte da vida entre a putaria e a prisão.

O filme finca sua câmera em 1932, quando o protagonista realiza o grande sonho de se tornar uma estrela dos palcos. E é nesse processo de transformação e mitificação de Madame Satã que a produção se concentra.

O mérito do direitor Karim Aïnouz (ele estreia como diretor de longas com esse filme) é colocar numa tela de cinema como protagonista o que a tela de televisão e a classe média tentam empurrar para debaixo do tapete: transforma em filme a vida de um criminoso de poucos escrúpulos, pobre, preto e viado (utilizo o termo viado pois era assim que JFS gostava de se auto definir, como ele mesmo disse em entrevista nos anos 1970, para o Pasquim, pouco tempo antes de morrer).

“Madame Satã” é monumental por duas razões: a) Karim Aïnouz nos entrega um filme com interpretações vigorosas e b) com um apuro técnico orgânico a serviço de contar uma história que resume como a vida se reinventa e encontra uma maneira de permanecer pulsando em meio a um ambiente inóspito de total ausência do Estado. Estas palavras do próprio diretor, ao tentar traçar um perfil de sua personagem, pintam um quadro revelador: "Ele foi uma pessoa que dava a volta no destino. Era um sobrevivente, não sabia muito bem o que queria da vida. Teve que se reinventar para continuar vivo. (...) Ele representa tudo o que eu não via no Brasil – uma ação política, uma disposição de meter o pé na porta”. E conclui: “A emergência do popular como vencedor, e não como alguém vitimizado, é muito recente em nosso país".

Nesses termos, “Madame Satã” rima com outros dois monumentos do cinema nacional, “República dos Assassinos”, de 1978, dirigido por Miguel Faria Jr., que narra a história dos esquadrões da morte nas favelas brasileiras, reconstituindo a ação de policiais justiceiros atuando com a conivência da classe média e da mídia, no que esse filme tem de estrangulamento social; e com o clássico do cinema novo, “O bandido da luz vermelha”, onde encontramos o lema ético do protagonista – “quando a gente não pode com uma coisa, a gente esculhamba” -, frase dita pelo bandido de Rogério Sganzerla, mas que poderia ter saído, sem tirar nem por, da boca de João Francisco dos Santos.

A escura festa cinematográfica de Aïnouz consiste em “enganar” ou “iludir” o espectador com a verdade: ao mesmo tempo que o roteiro julga João Francisco dos Santos como um sujeito violento, encrenqueiro, que assassinou covardemente um bêbado pelas costas e mais tarde (isso o filme não mostra, apenas escreve) se transformou em figura lendária dos carnavais do Rio de Janeiro; por outro lado, temos a beleza das imagens e a interpretação vulcânica de Lázaro Ramos, que praticamente desaparece na pele de JFS. Nas palavras do crítico americano Stephen Holden, “A performance incendiária de Lázaro Ramos queima como uma espoleta, iluminada por dentro de sua pele, que explode como fogos de artifícios devastadores”, e arremata: “formidável, ‘Madame Satã’ leva você às profundezas da alma do protagonista e seu mundo perigoso, mais do que você imagina que um filme pode ir”.

Estamos diante, portanto, de um paradoxo: temos, de um lado, a “feiúra” mais repugnante da vida e da geografia que a ampara, e por outro lado, a beleza mais arrebatadora da obra de arte, e é por isso que o filme vai ficar pra sempre – ele congela a verdade e a entrega ao espectador.

Do ponto de vista técnico, “Madame Satã” é um primor. A fotografia de Walter Carvalho (o mesmo de Central do Brasil) confere um tom escuro e lúgubre à narrativa, de maneira bastante coerente com a decadência do bairro da Lapa daquele período, como demonstra a passagem (15:13 a 19:14). Aïnouz tem absoluto controle das etapas da produção, e o destaque vai, sem dúvida, para a direção de atores, em que despontam, além de Lázaro Ramos, um Flávio Bauraqui soberbo, uma Marcélia Cartaxo primorosa e um Emiliano Queiroz em estado de graça. Em uma entrevista na época de lançamento do filme, o próprio Lázaro Ramos nos dá uma pista de onde retirou elementos para uma atuação histórica: "Tive que relembrar os momentos que sofri discriminações na vida. Esses são meus momentos 'Madame Satã'".

A direção é segura e praticamente sem concessões. E a sequência a seguir (33:11 a 36’) é magistral, tanto pela coragem dos atores, quanto pelo voyeurismo da direção. Se os espectadores se chocarem com isso, eles não são dignos do filme. Sua câmera praticamente invade o íntimo geográfico e humano, expondo tanto a marginalidade da ambientação quanto a força e a fragilidade  moral dos protagonistas para revelar a pouca margem de manobra social das personagens, como nesta sequência: (41:34 a 43:28).

 



Escrito por BRAULINO SANTANA às 03h15
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(Parte 2)

Do ponto de vista sociológico, o filme expõe a fratura de classes da sociedade brasileira, que está presente de modo recorrente em nosso cinema, desde os já citados “A república dos assassinos” e “O bandido da luz vermelha”, passando por “Pixote, a lei do mais fraco” e desembocando em “Central do Brasil” e “Cidade de Deus”. Expressa-se no que podemos chamar "representação do popular". Nesse campo, a partir dos anos 1960, o eixo que orienta a questão ética é um sentimento de má consciência relacionado ao fato de essa representação do popular ser a assunção de uma voz que não é a de quem a emite, afinal, temos uma configuração de forças de classe média branca produzindo filmes de cinema em que estão em cena personagens e classes marginalizadas da periferia geográfica, discursiva e simbólica. Nesses termos, como diria Jean-Claude Bernadet, no livro "Brasil em Tempo de Cinema" (Civilização Brasileira, 1967), em tom recriminatório: esse "outro" que representa o povo, que possui ambições de um saber pelo povo, nada mais é do que a classe média olhando para seu próprio umbigo.
“Temos um cinema de classe média, em vez de um cinema popular”, nas palavras de José Arthur Gianotti.

A má consciência emerge como uma armadilha: ao mesmo tempo em que personagens como JFS brilham na tela de cinema como personagens “de cinema”, pessoas como JFS apodrecem na vida real sem perspectivas de mudança social. Afinal, a bichinha preta, de cabelo duro, morando na favela, constantemente assediada pelos seus próprios fracassos, é relegada ao silêncio ou ao folclore de sua condição social. Somos levados a considerar, portanto, que sua manifestação no cinema contemporâneo embute uma forma de crueldade. As dúvidas para com o potencial do povo e sua cultura desaparecem para serem substituídas pela imagem idealizada desse mesmo povo, algo que, ao menos, esse filme consegue driblar com maestria. Na outra ponta do pólo popular, no pólo negativo, não está mais a classe média, mas a nação como um todo e, em particular, o Estado e suas instituições. Estabelece-se então uma dualidade maniqueísta: povo idealizado X Estado incompetente. Só assim a classe média pode realizar a sua catarse: “ainda bem que quem está ali são eles e não eu”. E, no espelho em que se mira naquela tela de cinema, a classe média sai arranhada, porque desnudada em sua insensatez, nas próprias palavras de Marilena Chauí: “A classe média é uma aberração política porque é fascista, é uma aberração ética porque é violenta, e, por fim, é uma aberração cognitiva porque é ignorante”.

O brilho do filme em retratar seu protagonista faz com que ele seja salvo, no plano especular, da miséria social e entre como ícone do imaginário ficcional, e Aïnouz retrata isso ao filmar uma personalidade que, de tão grande, não cabe na tela toda, como se pode perceber nesta cena: (43:29 a 45:29).

Caímos, portanto, num pântano de ambivalências, ao admirarmos a beleza do filme erigida pelo apuro técnico e pelas interpretações, e, ao mesmo tempo, o sadismo do olhar da classe média. Estamos nos referindo às estratégias desenvolvidas pelo  filme para promover emoções no espectador por meio de mecanismos de catarse que incidem sobre a representação, acentuadamente negativa, de aspectos da vida social brasileira. Existe um certo prazer perverso em representar o sórdido no decorrer da película, e isso desafia o espectador a “cooperar” para desfrutar aquilo que o filme tem de mais soberbo: ele nos transporta para um mundo que teimamos em não considerar o “nosso” mundo, e do qual tentamos fugir.

A ousadia do filme em desafiar o espectador ao acentuar uma dimensão voltada para capturar aspectos bestiais e repulsivos da vida e à maneira de mostrá-los de forma crua e desagradável, mas filmicamente perfeita, chamo de “naturalismo selvagem”.

A ideia de naturalismo selvagem nos ajuda a entender como, em certa altura do filme, JFS proclama que ele é “viado por escolha”. Isso contrasta com as imagens que o espectador enfrenta: ele percebe que o que está sendo visto emerge de uma condição social, ao mesmo tempo em que ouve algo relacionado à opção de ser “viado por escolha”. O que nos coloca numa encruzilhada: em verdade, JFS não escolhe ser viado, pois o é por condição, mas escolhe ser um certo tipo de viado.

Voltando à questão que se propõe Roger Egbert  “O que foi que aconteceu comigo durante essas duas horas em que estive vendo esse filme” - posso notar que, dentre as várias qualidades de "Madame Satã", está o fato de modificar uma visão de mundo e certificar como morta certa mitologia do malandro na crítica social e no imaginário brasileiros. Pois a figura de Madame Satã surge investida no filme mais do peso político da marginalidade social do que do charme e da rebeldia atribuídos comumente ao malandro. Antes de ser "malandro", JFS é quatro vezes marginal: é pobre, é negro, é analfabeto e é viado.

 "Madame Satã" é um filme de grande força plástica, construído como um conjunto de excrescências recalcadas que afloram - do lodo podre dos cortiços até os corpos masculinos (o malandro é mito fortemente heterossexual).
Mas é um erro adotar o filme como um ajuste da malandragem na ótica das minorias. A sua Lapa mais ou menos irrealista, “impregnada na imagem das ambiguidades e fantasias do personagem, é um cenário asfixiante e violento, onde Satã é exibido menos em seu ‘lirismo’ do que como peça de uma gigantesca tragédia”, nas palavras de Alcino Leite Neto.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 03h09
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Nota de falecimento

 

O boato de que o programa bolsa família iria ser extinto deixou claro como a cidade depende de ajuda federal para combater a miséria. As filas no caixa eletrônico da rodoviária, e noutros cantos, desnudaram o estado de calamidade pública a que chegou a falta de investimentos na região.

 

Não há diálogo entre as prefeituras locais e os pequenos agricultores para incremento da merenda escolar – o que há é promiscuidade dos prefeitos para beneficiar as cooperativas de leite na distribuição de iogurte aguado como merenda, justamente as cooperativas que financiam esses prefeitos saídos das catacumbas do coronelismo.

 

Há uma tragédia que se alastra como uma doença perigosa e contagiante, que cresce e toma conta de norte a sul da cidade. E os pobres não se revoltam porque manipulados pela proliferação das igrejas evangélicas, como ervas daninhas, contendo as insatisfações, transferindo-as para a eternidade absoluta. É por isso que todo candidato a prefeito dali vai meter a mão dentro das cuecas dos pastores evangélicos, cheirar a mão na captura do perfume e depois pedir a benção. O desastre lentamente corrói mente e corações, e potencializa os eventos de mortes lentas e à míngua. A cidade vive um cenário de guerra sutil, lenta e suave.

 

Professores da classe média universitária dali são cúmplices, senão, coautores da tragédia toda. As idosas com abono permanência tirando proveito  da miséria alheia; os ex-padres engordando e correndo atrás do tempo irrecuperável; as mães de santo babando ovo de gente endinheirada; as idosas militantes comunistas; os estrangeiros frios e insensíveis que, sem espaço no Sul e Sudoeste do país, deslocam-se para a cidade, engrossando a fila dos que humilham os nativos; a profusão de evangélicos egoístas e mesquinhos fazendo chantagem com e em nome de Deus (parece atuar por ali esmoleres de luxo, a quadrilha das evangélicas vivendo de esmolas de quem nada tem a oferecer); as católicas proxenetas sociais fantasiadas de Santa Rita de Cássia - cúmplices que arquitetam a tragédia.

 

O cenário lembra o clássico de Paul Verhoeven, “O Vingador do Futuro”, filme baseado no conto de Philip K. Dick – o vilão vendia oxigênio. O oxigênio são a “palavra” de Deus (palavra de Deus é um eufemismo para ordens, ameaças, admoestações e chantagens de Deus), os puxadinhos e as construções alugados a preços inadmissíveis – professor que faz puxadinho para alugar deveria ser investigado pelo Ministério Público, e chamado a se explicar pela Secretaria de Educação, afinal, em que hora estuda para atuar como professor? Age por ali a máfia do aluguel – investimento com dinheiro improdutivo, recuando a cidade para limites de fronteiras mentais e sociais medievais.

 

É o reinado do consumo absoluto, com a visão americana de que “o consumidor sempre tem razão”. Nem de decoro na hora de consumir essa gente é capaz. O  consumidor é um irracional: ele é responsável pela comida que falta na mesa dos outros; pelo aluguel caro que é submetido aos outros, inflacionando o mercado imobiliário numa cidade já miserável.  A razão de viver dessa gente é o cartão de crédito. É o  bando de paus mandados do consumo, são os guerrilheiros a serviço do Visa e do Mastercard. Pagam o cartão de crédito em dia, e humilham os moradores sem eira e nem beira  perambulando pelos arredores daquela feira livre, entregando-se, sem perspectivas, aos restos e às migalhas espalhados pelo caminho.

 

Vivi tempo o suficiente ali para entender a lógica de reprodução da miséria, o desconforto interior e o total abandono de tudo aquilo ali.  Todo mundo aceita tudo aquilo como se fosse algo natural, parte da paisagem, como aquelas imponentes montanhas. Os próprios “intelectuais” daquela universidade cuidam para fazer morrerem as possibilidades de movimentos sociais. O mote é distribuir esmolas naqueles projetos de extensão da área da saúde – auferir pressão arterial; distribuir cartilha de como se prevenir de doenças, como se cada um é que devesse cuidar de si mesmo, como se a maioria das doenças não fosse de cunho social. Os projetos de extensão das literaturas dão vozes a visões estereotipadas de autores como Monteiro Lobato. Os projetos de extensão de movimentos para os pretos chegam a ser criminosos, oferecendo oficinas para ensinar a trançar cabelos crespos e caruru de São Cosme e São Damião – ensinando o lugar onde preto deve ficar parado e permanecer.

 

Vive-se ali uma verdadeira obsessão pelo “si mesmo”. É o mundo do “eu” pago imposto, “eu” mereço isso, “eu” posso comprar aquilo, “eu” exijo que seja feito para mim – tudo deve ser meu. Não se esforçam para coletivizar os bens, não se responsabilizam pelo direito dos outros, está todo mundo abandonado e por conta própria.

 

Os evangelismos quadrados, católicos e quadrangulares impõem a apatia social, a falta de passeatas, de reivindicações, a alienação total e incontrolável.  Em lugar onde católico e evangélico comandam, com seus valores anti mulher e anti gay, imperam a miséria e o totalitarismo – vide sociedades africanas e orientais. Não existe um filósofo ali. Se houvesse filósofo, haveria a possibilidade de “vamos acabar com tudo isso, agora”. Haveria imolação em praça pública. O filósofo pregaria que a única coisa que importa ali será reinventar a verdade – a construção da verdade. Como nos ideais primordiais da Filosofia, a verdade conduziria para o infinito de possibilidades.

 

Mas os professores daquela universidade, gente que passou pelos corredores das luzes do saber e do connhecimento, preferem optar  pelos acionistas dos cartões de crédito, preferem se aliar ao Visa e ao Mastercard ao invés de construir um futuro que preserve a cidade e os cidadãos dali.

 

As questões deles incluem Boticário e carro novo. Estão presos ao cada um por si. Não entendem que, se não houver salvação para todos, não haverá salvação para mais ninguém. Se não tiver para todos, não pode ter para mais ninguém. Podem até se beneficiar do cartão de crédito para consumir hoje, mas as suas memórias ficarão reféns do silêncio que se impuseram nas lápides dos cemitérios onde habitarão. Suas notas de falecimento jamais deixarão que durmam um sono tranquilo pela eternidade que virá. Pois passaram pela vida como um cão, um verme, uma bactéria. 

 

Mas vai haver revanche, vai haver uma volta de tudo isso que foi deixado para trás. Vai haver um futuro em que não existirá mais lugar onde se colocar a miséria física, simbólica e espiritual,  e a miséria vai ressurgir como um fantasma de faca em punho contra os aliados do cartão de crédito.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 10h55
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Luto fechado: a decadência do curso de Letras

 

A decadência do curso de Letras arrasta-se lentamente, como uma serpente esgueirando-se por um terreno seco, quente, em pedregulhos. O objeto de investigação de um curso de Letras, a língua, espera, ali naquela universidade, quem o abrace, quem o faça grande, quem o respeite. Ali dorme um mundo onde o objeto linguístico é tratado como um inimigo: é a militância dos telefonemas na calada da noite enluarada; onde os conflitos recebem tratamento blasé, como se fossem coisa de dissidente, de bicha maluca, encrenqueira, que vê conspiração em tudo.  É o mundo do terrorismo discursivo, da ameaça à consulta a procuradores por uma vírgula que seja. Ali jaz um mundo defunto, em cuja lápide está escrito: “o cargo é meu; a coordenação, também”.

 

O bote armado pela serpente do silêncio e dos autoritarismos, das mesquinhas conquistas silenciosas, tem sido gestado há gerações por mentalidades de classe média – “a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética, porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante” (Marilena Chauí).

 

No retrato da classe média, elas aparecem sorridentes, dentes limados e corrigidos com aparelhos custando os olhos da cara, e branqueados com produtos importados (a cor branca, obrigatória para peles, dentes e cabelos em capas de revista e aparelhos de televisão, é um verdadeiro fetiche). Aparecem no retrato da classe média dali pedagogas sonsas que dão o golpe do voto nulo; biólogas comunistas, mamando, entra ano sai ano, as coordenações disso, as bolsas daquilo. Não são capazes de dizer uma palavra sobre o esgoto onde vivem. Taradas! Na cumplicidade, fazem parelha com todo tipo de violência simbólica.

 

A decadência toma conta da cidade de ponta a ponta. Tem início naquela rua acidentada, nua, que se estende com esgoto a céu aberto, e vai dar no bairro onde funcionam as bocas de fumo; esparrama-se em fagocitose pelas periferias ao sopé daquelas majestosas montanhas, e acaba em um grito sufocado, preso no ar da humilhação do desemprego e da solidão de todo mundo. Quem mora desde criança em rua com esgoto a céu aberto vira bandido ainda adolescente. E não me venham com ideologias fascistas-cristãs-evangélicas, ou dissimulações tipo Canção Nova (Deus proverá) de resiliência e resignação – a violência oriunda das classes baixas é uma vingança contra uma sequência de abandono e desenganos em que vivem os pobres periferia país afora, aquela cidade adentro.

 

Todos expostos à agonia que só os rendimentos do bolsa família podem minimizar: “Muita gente deixou de trabalhar só para viver de bolsa família, professor”. Encarei o aluno que me disse essa frase, e a vontade que dava era cortar a língua dele no ato, dar-lhe um murro na cara. Não sei a idade das ideias de gente que pensa desse jeito, demonizando o mais importante programa de distribuição de renda do mundo moderno. Essa insolência cafajeste ele deve ter aprendido naqueles cursos de Letras, Biologia, Química e Pedagogia dali, mentalidades que só ensinam a odiar os pobres. 

 

Sem transporte público, a cidade virou uma franquia para a classe média que possui carro, e dela se apossa como se fosse dona e algoz. Desespero, tristeza, respiração superficial, luto fechado. O mais abominável de tudo isso é a sordidez da cumplicidade e da participação na gerência da miséria que se abateu sobre a cidade.  

 

Elas assumem, sorridentes, os cargos das gerências da educação das prefeituras. Nem uma palavra sequer sobre a merenda escolar distribuída por ali. Tudo é mais ou menos vomitivo, tudo é mais ou menos escandaloso, um engodo. A ideia é sempre a mesma: desde Sócrates, somente variadas vozes, em uníssono, teriam o poder de, escancarados os desvarios, mobilizar as possibilidades de mudança de algo.

 

Mas elas preferem processar quem escreve. Como é possível processar quem escreve? Sobretudo com a conivência de gente que cursou Letras! Gente que processa quem escreve – a mando de professoras de literatura portuguesa – não passa de água suja que escorre pelo cérebro e se derrama pelas mentalidades, como o esgoto a céu aberto naquela rua que vai dar nas bocas de fumo. Para mentalidades que processam quem escreve, o único mundo possível será o mundo do silêncio absoluto.

 

Sem uma política universitária estratégica, que estanque a debandada dos doutores, aquilo ali nunca deixará de ser o mundo de uma eterna e decadente estrutura de ensino médio com status de faculdade pública. Nunca deixará de ser o mundo das professoras idosas que só pensam na ganância do abono permanência, só pensam fornicar com o Estado até gozarem a última gota. Nunca se preocuparam com projetos de pesquisa, com projetos de extensão, com sua auto formação para transformar aquilo numa universidade de verdade. Só o abono permanência, uma espécie de bônus para os anos de subserviência aos desmandos e aos descasos, interessa. E aqui vai a mais suja das frases deste texto: quem reivindica abono permanência não tem a mínima coragem de fazer um discurso pró bolsa família.

 

É o mundo das que assumem pró reitorias da vida – acumulando DAS’S e bolsas – e as primeiras atitudes exibem consultar procuradores para deliberar sobre o lugar certo onde colocar o papel higiênico, dar parecer sobre qual é o sexo da imagem do anjo naquela sala daquele projeto sobre Monteiro Lobato. Consultar procurador é convocar a polícia para o campus. Como é triste tudo isso: dá vontade de me suicidar.

 

É a decadência mais insuportável: logo o curso de Letras, área do conhecimento que lida diretamente com o bem mais precioso de que um ser humano é capaz – a reflexão constante, inexorável, de como construímos sentidos para as nossas vidas! A decadência foi sendo gestada day by day pelo triunfo da classe média, e seus ideais de consumo e ostentação.

 

Professoras com os seus carrões desfilando seus motores envenenados pelas ruas de lama da cidade. Os ideais de classe média que acabaram ganhando hegemonia ali foram engolindo e apagando pelo caminho o restante da cidade. As madames que adotaram trevos verdes nas lapelas assinam, por certo, a revista Veja, e jamais se preocuparam em transformar aquele em um espaço laico, covardes que sempre foram contra o enfrentamento das manifestações religiosas no campus; jamais encaram o conflito e expõem a miséria da cidade onde vivem – aliás, quanto mais miserável, melhor: assim pagam diárias de fome para quem lava as suas calçolas e cozinha as suas comidas. No fundo, no fundo, só querem pular de cargo em cargo, fazer o boquete certo nas finanças do Estado.

 

Nunca ouvi dizer que algum daqueles “professores” mantivesse um blog, escrevesse para jornal, manifestasse opinião sobre o mundo, vagabundo, que os cerca. Todos recebem os seus contracheques em total silêncio e leniência, como se vivessem apenas para comer. Na Grécia antiga, aprendemos com o filósofo como se deve morrer direito, nas palavras finais de Sócrates aos que o condenaram e aos que o absolveram: “Aos primeiros, Sócrates afirma não ter se arrependido do modo como se defendeu e profetiza o castigo que hão de sofrer – a intensificação dos questionamentos que queriam eliminar. Aos segundos, diz imaginar que a morte deva ser um grande bem, seja ela um sono tranquilo ou o convivívio no Hades com os grandes homens que lá habitam” (André Malta).



Escrito por BRAULINO SANTANA às 02h12
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Homenagem aos formandos de Letras, turma de 2013 – Parte 1

 

Fico imaginando as negociações para a escolha dos professores homenageados na formatura dos alunos do curso de Letras, turma de 2013, da UESB, campus de Jequié.

 

Como será que se desenrolou o diálogo entre eles para excluir o nome de professores seminais para a turma de formandos, como o nome dos professores André Faria, Manoel Sarmento, Anísio, Zilda Freitas e Marcos Aurélio? Sarmento? Quem vai lembrar de bicha drogada e perdedora numa hora dessas? O mérito técnico de cada um está totalmente fora de cogitação, pois, comparando alguns dos nomes dos que entraram com os nomes dos que ficaram de fora… cala-te boca! Houve dissidentes? Houve quem defendesse o nome desses professores, e tiveram sua voz vencida? Houve tendências?

 

Pode parecer algo sem consequências, reflexão sem futuro, perda de tempo sem nexo. Mas as escolhas de hoje, a partir do momento histórico em que vivemos, anulando pessoas dos espaços públicos, revelam o lugar social em que nos inserimos, e quem pode ou deve fazer parte dele. Essa turma de formandos escutou numa daquelas aulas o mito de Teoros – palavra que nos legou termos como teórico e teoria –, o narrador grego que se postava em um lugar e, a partir dele, comentava os acontecimentos da pólis grega. E aprendeu com o mito que o lugar social ou ideológico em que estamos é fundamental para explicitar o conteúdo que narramos. O lugar faz parte do conteúdo. É o conteúdo propriamente dito.

 

Como não é possível deduzir as palavras exatas, os termos precisos, as alianças possíveis, as projeções de cada um… Como não é possível saber exatamente a ideia que cada um manifestou para contemplar alguns – a maioria de evangélicos… Posso muito bem conjecturar ideologias por trás de atitudes como essa – uma delas, o triunfo do fundamentalismo religioso em Jequié, um microcosmo do triunfo propriamente militante do pastor evangélico Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados em Brasília.

 

Dá uma pena tão grande de uma cidade como Jequié: aquelas montanhas todas, aquele vale urbano cercado de verde por todos os lados, enquanto o que de fato interessa – as pessoas dali – definha aos poucos amedrontado pelos discursos religiosos.

 

É praticamente insuportável testemunhar a energia das vendedoras – com suas bacias na feira livre debulhando feijão verde vendido a preços envergonhantes – escoando sem futuro. E a universidade – pública! –, espaço por excelência onde o pensamento e a reflexão deveriam encontrar saídas, um ar que se respira, alimenta as paixões do compadrio evangélico, a sanha dos esquematismos religiosos, com a complacência de todos, e, mais inaceitável ainda – com a conivência de jovens formandos que entregam o seu presente e o seu futuro aos cuidados de discursos fundamentalistas religiosos tentando dominar o mundo.

 

Eles pouco se dão conta – ou muito compactuam com os fundamentalimos, não sei bem se se trata de vítimas, cúmplices ou alienados em potencial  – de que, sem pagar impostos, enriquecendo poucos, fortificando ideias como a criminalização do aborto ou pregando a cura para pessoas com afetividade homossexual ou demonizando religiões de matrizes africanas, impondo o seu modus operandi do exclusivismo, os fundamentalistas cristãos atuam para fenecer o pouco de pensamento livre que ainda resta.

 

A noção de bem, e a moral moderna, que, bem ou mal, ainda sustenta a convivência entre todos, sem que nos matemos como na antiguidade, foi erigida a partir de um longo trabalho que empurrou os fundamentalismos religiosos para o espaço privado. Hoje em dia, o recrudescimento público desses fundamentalismos é um risco muito grande para todos nós. É gente que empurra uma massa de milhões de pessoas para as marchas religiosas, gente que faz barulho nas assembleias e câmaras de poder Brasil afora, cordeiros que compram discos, aos milhares, – está tudo dominado, portanto.

 

Fico sonhando com uma militância religiosa – já que isso é algo inevitável – forçando os prefeitos a retirar esgotos escorrendo pelo meio das ruas; evangélicas com suas pernas cabeludas e suas saias imensas com a Bíblia debaixo do braço pressionando por merenda escolar digna de um ser humano; homens “de Deus” usando sua virilidade para clamar por bibliotecas nas escolas das periferias; crianças aprendendo o catecismo mas ao mesmo tempo sendo ensinadas a respeitar as diferenças, convivendo com os seus pares vizinhos que frequentam o candomblé. Seríamos outros. Seríamos melhores. Minimizaríamos as violências de que somos vítimas. Seríamos imbatíveis.

 

Mas evangélico é muito egoísta: só pensa no seu próprio Deus – ao mesmo tempo em que odeia o Deus dos outros; só respeita os seus próprios pares, ao mesmo tempo em que derespeita a religião dos outros; quer tudo para si, a começar pela isenção de impostos; não são capazes de ecumenismos simbólicos – dentro do coração; só finge tolerar cultos ecumênicos pois a sociedade não aceita mais celebração religiosa sem envolver religiosos e não religiosos. Não se vê o dinheiro que se arrecada utilizado em benefício dos que sofrem, e dos necessitados. Não se funda um hospital evangélico, não se encontra uma creche “cristã”, não existe uma escola gratuita cristã, enfim, arrecada-se para empobrecer os fieis, e nunca para beneficiá-los.  

 

Leio quase sempre os quatro evangelhos canônicos, e em nenhuma passagem ali encontramos termos, ideias ou reflexões que justifiquem a agenda dos cristãos evangélicos e católicos de hoje. Ali não existem táticas que articulem o enriquecimento manipulando pessoas que nem pensar por si mesmas conseguem: pelo contrário, há a chibata chicoteada contra vendilhões – a tradução “vendilhões” é mais do que perfeita – dentro dos templos; não há uma vírgula sequer contra o casamento de quem quer que seja; não encontro nenhuma palavra estabelecendo quem, de fato, deve compor o conceito de família; quais religiões são as ‘verdadeiras’; o que fazer com quem faz sexo dentro ou fora de determinados padrões; que tipo de pessoas deve fazer parte da “minha” igreja. Nesses termos, as igrejas evangélicas e católicas postulam ideias e vivem sob a égide de éticas completamente anti Cristo.

 

Os formandos da turma de Letras/2013, portanto, munidos por ideais evangélicos – o discurso de formatura será feito por uma professora militante evangélica –, ignoram o papel fundamental de uma universidade pública e manipulam os reais objetivos da livre circulação do pensamento na construção de mundos abertos ao diálogo. De onde vêm as ideias que criam mundos à parte, onde só cabem os iluminados, os eleitos para o reino dos céus? O que se passava na cabeça de cada  um desses alunos quando tomaram suas decisões, a frieza da coisa toda…?

 

Ao tentar anular professores, como se o simples apagamento do nome deles do papel do convite de formatura fosse capaz de apagar a memória, a turma formanda se esqueceu de uma lição: o que esses professores fizeram  pelos corações dos alunos que eles tanto amaram.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 16h15
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Jorge Barros é mais importante para Jequié do que Wally Salomão

 

Era um dia cinzento, nuvens mal humoradas lançando suas sombras sobre o campus. Um dia qualquer de 2006, sob a direção da professora Sônia Matos, o DCHL viu surgir uma pequena revolução que mudaria os destinos de todos nós ali. Um preto em jaqueta de couro, imponente, invade a sala de reunião com a melhor ideia que o DCHL e a UESB jamais tiveram – a implantação de um curso de Artes. Sabíamos que era um sonho antigo, adormecido por mais de uma década.

 

Em Jequié, vivemos em um mundo represado na Idade Média. Onde o riso se perdeu em algum momento de um passado não tão distante assim. Evangelismos quadrangulares asfixiando e escravizando corações, retrocedendo a valores arcaizantes de mais de mil anos. Nem sei como a religião se tornou a muleta da cidade. Nem sei como tudo aquilo ficou daquela maneira: mulheres vestidas como talibãs; homens impondo, via Bíblia, o seu modus operandi de poder patriarcal. As nuvens continuam lançando os seus escuros sobre os cantos da cidade, mas sobre o campus, agora, há uma primavera que dura, pois um preto nos trouxe um atalho para a liberdade.

 

Aquelas garrafas penduradas já eram um prenúncio. Não será preciso você cobrar de ninguém reconhecimento. Todos nós nos lembraremos que foi você e sua audácia que conseguiram implantar os cursos de Teatro e Dança. Você já é histórico, pois vivemos em um mundo em que a memória teima em ficar exposta, mesmo se lutarmos contra ela. Podem vir muitos, e que venham, podem vir tantos, e que venham, mas o seu lugar será sempre seu, e de ninguém mais.

 

O preto era Jorge Barros, que fez o que nenhum movimento de reivindicação seria capaz. Com ele, e suas tábuas da lei, vieram, mais tarde, cores, risos, passos de dança e maquilagens invadindo o campus plantando flores de primavera abissais. Talvez você não tenha dimensão do bem que nos trouxe. Mas todos nós temos, caro Jorge Barros, e seremos eternamente gratos por, um dia, você fazer com que acreditássemos que a primavera pudesse ser eterna.

 

A você devemos uma nova reorganização de espaços e saberes, uma nova configuração de forças, um novo ar que se respira no campus. Você mostrou que o futuro todo estava por ser construído, que das ruínas de mundos perdidos sombreados de cinzas sempre existem tijolos a ser recuperados. Enquanto muitos, a classe ociosa da qual Wally Salomão era a parte mais espalhafatosa, sempre fizeram lobbies e acordos soturnos para cursos de Medicina e Odontologia no campus, cursos do mercantilismo coronelista, que beneficiam filhos de rico e gente de fora da cidade, aqueles que fizeram ensino médio em escolas particulares, você pensou grande, pensou alto, pensou o futuro – a implantação de cursos que não trazem lucros capitalistas, mas constroem humanidades.

 

Wally Salomão, o festejado e famoso tropicalista da cidade, nunca ligou para aquilo ali. Preferiu submeter-se ao atalho do colonialismo macaqueado do Sul e Sudeste. Preferiu compor versos de modernismo surrado a gestar para Jequié políticas públicas que enfrentassem os valores arcaicos em hegemonia ali – existe coisa mais auto indulgente e brega do que “Oh, abelha rainha / faz de mim / um instrumento de teu prazer”? Esse tipo de canção cai bem para os recentes festejos de bodas da rainha da Inglaterra. Lugar de súdito é na Abadia de Westminster. Mas você, caro Jorge Barros, tomou o atalho do moderno que congraça.

 

Foi emocionante vê-lo, como se estivesse possuído, circular pelo corredor do auditório que recebia a reunião do CONSEPE falando baixinho: “pelo desmembramento do curso de Artes em Teatro e Dança, pelo desmembramento do curso de Artes em Teatro e Dança”.

 

E reproduzo aqui parte de seu discurso, conclamando todos os conselheiros à reformulação do curso: “O curso de Licenciatura em Artes com Formação em Teatro ou Dança, no Campus de Jequié, deve ser imediatamente reformulado, adequando-se às exigências do mercado de trabalho, da qualificação profissional e da capacitação do professor-artista. Não obstante as necessidades dessa reformulação, ele se constituiu uma proposta de extrema ousadia e desafios educacionais do DCHL – contribuindo para o crescimento da UESB-Campus de Jequié. A proposta de implantação de uma Licenciatura em Teatro e em Dança, hoje, discutida neste Conselho, era a mesma pleiteada pela Comissão de implantação do curso de Artes em 2006. Evidentemente, como muitas dúvidas têm surgido e, em alguns casos, falsas afirmações e contradições têm sido divulgadas por alguns professores, torna-se necessário estabelecer uma linha do tempo para expor, com clareza, as trilhas do processo de criação do referido curso. O início da criação do curso de Licenciatura em Artes com formação em Teatro ou Dança se deu em 2006, com base na própria realidade da cidade de Jequié: vários cursos de graduação na área de educação, vocação para dança e teatro, demandas levantadas na comunidade quanto à carência de professores de teatro e de dança no ensino fundamental e médio, a existência de vários grupos de artes e três espaços artísticos: o Teatro Municipal, o Centro de Cultura e Casa da Cultura. A existência de um grupo de dança e um de teatro e a realização de várias mostras de teatro amador no campus de Jequié também contribuíram para a realização desse curso... O que será esclarecido a seguir deverá contribuir muito com a sua reformulação”.

 

E quando muitos de nós ali esperávamos uma cantilena ressentida, você se mostrou grande, e lançou as palavras de ordem: “Parabéns, DCHL, pela ousadia de inovar no campo das Artes! Viva o Teatro! Viva a Dança! Pela reformulação do curso de Artes!”

 

Do meu modesto lugar, de quem presenciou o dia em que você invadiu a nossa reunião e nos conclamou a refazermos o nosso futuro, digo: “Parabéns, Jorge Barros, pela ousadia que nos motivou a inovar no campo das Artes para uma vida mais refrescante para a UESB e para a cidade de Jequié”!

 

A sua causa ali, nobre professor, não era lucro nem poder – era a mais fundante de todas as causas: a formação plena e desinteressada de um ser humano, para a qual nenhuma ciência ou filosofia já se mostrou eficiente. Um homem com uma causa daquelas não vai ser esquecido nunca mais.



Escrito por BRAULINO SANTANA às 18h06
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